“Faz tempo que pessoas que amam o mar advertem autoridades e nada é feito”, aponta capitão Schurmann

A notícia da contaminação da praia de Canasvieiras, norte da Ilha de Santa Catarina, espalhou-se pelos oceanos. No mar da Austrália, onde navega o veleiro Kat, da Família Schurmann, as informações levadas pela plataforma online do Diário Catarinense foram recebidas com tristeza por Vilfredo, Heloísa e os demais tripulantes da Expedição Oriente. Mas não com surpresa.

– Faz tempo que pessoas que amam o mar advertem autoridades e nada é feito. Basta olhar as estatísticas de balneabilidade, as quais pioram a cada ano – disse o capitão Vilfredo Schurmann.

A expedição partiu de Santa Catarina em 2 de setembro de 2014 e se encerra em 22 de dezembro deste ano depois de passar por cinco continentes. Esta é a terceira expedição da família, que tem base em Porto Belo, no litoral norte catarinense. O veleiro Kat tem tratamento de esgoto e a água jogada no mar é limpa e sem cheiro. O processo de tratamento por ozônio foi instalado com tecnologia catarinense.

– O mar é o nosso fundo de quintal e temos que tratar como se fosse nossa casa.

O capitão também faz críticas às autoridades, a quem sugere “parar de tapar o sol com peneira”. Para ele, foi o que ocorreu em Canasvieiras (entre os dias 8 e 14 de janeiro toda a extensão do balneário esteve imprópria para banho de acordo com relatório da Fundação do Meio Ambiente)

– Os viajantes de todo o mundo procuram lugares com água limpa para colocar seus barcos, e o mesmo ocorre com os turistas conscientes que valorizam iniciativas que preservam o meio ambiente.

Nesta reportagem, Vilfredo se vale também da experiência de ser um dos maiores navegantes do mundo para falar do que chama falta de cultura de Santa Catarina – e do país – para investir no setor náutico. Observa a inércia em renovar as leis de proteção ao meio ambiente e na inoperância de se buscar alternativas sustentáveis para empreendimentos.

O capitão do veleiro Kat também fala sobre a falta de estrutura dos 561 quilômetros do litoral catarinense. Voltada para o oceano Atlântico, é um dos mais bonitos pedaços entre os 8 mil quilômetros da costa brasileira. Desenhado por praias, costões e ilhas, inclusive a de Santa Catarina, possui grande atrativo turístico. Com tamanho potencial, as águas geram demandas por barcos, atividades náuticas, equipamentos. Além de estruturas de apoio.

Mas quando o assunto é garagens ou marinas, o tema divide opiniões. Como ao projeto apresentado em julho do ano passado pela prefeitura de Florianópolis e que trata de uma marina na Avenida Beira-Mar Norte. Para sair do papel, a obra depende de autorização da Fundação do Meio Ambiente e Superintendência do Patrimônio da União. Argumentos contrários à construção de marinas alertam sobre danos ao meio ambiente. Confira a entrevista feita por e-mail.

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Saneamento como prioridade

A questão do saneamento é mais do que urgente. Todas as cidades precisam ter o saneamento como prioridade na agenda. Principalmente no litoral: não adianta permitir a construção de prédios e condomínios se não houver garantia de capacidade de tratamento de água e de esgotos. Enquanto isso, os órgãos públicos no afã de querer preservar o meio ambiente, em geral não autorizam obras em áreas vocacionadas para marinas. Muitas dessas proibições acabam gerando a favelização de áreas que ficam ociosas e consequente degradação.

Lição de Canasvieiras

É preciso agir de imediato. Não ficar na conversa. Se o problema é de investimentos, então vamos trabalhar na educação através de placas para os turistas saberem como se comportar e mesmo a nossa gente. No Instituto Kat Schurman fizemos vários programas de conscientização de preservação indo falar com os turistas da necessidade de preservar as praias. Temos que começar com pequenas ações. Com referência a tratamento de esgoto, é possível fazer unidades de tratamento compactas localizadas em cada bairro. Isso é feito em muitos lugares do mundo.

Fiscalização rigorosa

O governo pode e deve fazer parcerias público-privadas para investimento nesta área. Uma fiscalização rigorosa das prefeituras nas residências. Dar incentivos com diminuição de impostos para quem fizer tratamento ou pré-tratamento ou para aqueles que não têm condições financeiras, desenvolver projetos com instalação de fossas especiais, bem construídas e com fiscalização.

Só pensam no lucro

O que se vê a cada ano é todo mundo querendo faturar com os turistas e não estão nem aí para o futuro da cidade. Não enxergam lá na frente esperam o desastre acontecer. Nós fizemos uma campanha em Bombinhas, conseguimos montar um projeto de tratamento de esgoto sem custo e entregamos na prefeitura. Mas tudo ficou na estaca zero. Sempre com a mesma conversa, “temos que fazer um estudo mais amplo, mais detalhado”. Ficam dois a três anos no estudo e quando está pronto já está defasado e depois tudo vai por água abaixo.

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Preconceito

Ao visitar Santa Catarina em abril do ano passado, o ex-atleta olímpico Lars Grael sugeriu que o Estado enfrenta o mesmo problema do país: a falta de uma cultura náutica. Para ele, há um preconceito de que marinas agridem o meio ambiente, imagem antiga e equivocada. Precisamos aprovar os projetos equilibrados. Isso é possível e comprovado em vários países.

Autoridades

Marinas deveriam ser percebidos por autoridades e população como uma forma efetiva de desenvolvimento das cidades litorâneas, além de contribuir para estimular a prática de esportes náuticos. Será que já não chegou a hora das autoridades catarinenses adotarem políticas públicas de estímulo à conservação ambiental por meio dasmarinas? O que se percebe na prática é que se a comunidade não interage com o lugar, esse certamente será muito mais poluído e degradado.

Conscientização

Existe sim a falta de conscientização turística, mas também níveis de exigência por práticas sustentáveis. Turistas europeus, por exemplo, preferem a adoção dessas práticas e demonstram preferência por praias e marinas que tenham o selo Bandeira Azul, criado em 1985, na França. Para esse turista, é um diferencial saber que o local assumiu compromisso com a sociedade e com o meio ambiente.

Certificação

O Bandeira Azul certifica praias e marinas com critérios relacionados à qualidade da água, educação e informação ambiental, gerenciamento e segurança. Das quatro certificadas no Brasil, duas são em Santa Catarina. Praia de Palmas (Governador Celso Ramos) e Lagoa do Peri (Florianópolis), temos duas marinas, sendo Costabella (Angra dos Reis/RJ) e Marinas Nacionais (Guarujá/SP).

Marinas públicas

Além das marinas privadas e das certificações, existem as marinas públicas.Tratam-se de espaços gratuitos que não abrigam embarcações, mas oferecem infraestrutura básica à navegação como uma rampa de concreto para a colocação e retirada do barco na água e estacionamento. Dentre as vantagens que oferecem, está a humanização de áreas não aproveitadas das cidade. Com o tempo, esses espaços podem se transformar em ponto turístico. No Brasil, Rio de Janeiro e Salvador oferecem infraestrutura náutica semelhante. Existem muitos lugares ideais para a construção de marinas públicas, com possibilidades de investimento econômico e retorno social.

Exemplos nacionais

Em Natal, capital do Rio Grande do Norte, há concessão internacional para construção de uma marina com objetivos proporcionar o desenvolvimento do setor turístico e náutico. A Federação do comércio, a universidade federal e outras instituições de ensino superior trabalham em conjunto. Está em curso um estudo ambiental minucioso visando que a marina apresente durante as fases de instalação e operação o menor impacto ambiental negativo possível. Ainda no Norte, a cidade de Belém, no Pará, estuda revitalizar a marina pública por meio de uma concessão internacional. Em ambos os casos, os critérios de sustentabilidade são inerentes aos contratos de concessão previamente elaborados.

Experiências recolhidas

Durante a Expedição Oriente, nos deparamos com exemplos de marinas sustentáveis que poderiam ser implantadas em Santa Catarina. Ficamos por 35 dias em Opua, uma pequena cidade de 800 habitantes no litoral norte da Nova Zelândia. Afinal, depois de um ano de navegação o veleiro Kat precisava de manutenção. Levantamos o barco e em cinco dias estava novamente no mar, com toda a pintura abaixo da linha de água renovada. Chegam no verão mais de 30 veleiros por semana. Na temporada, são mais de 500 veleiros de todas as partes do mundo. Na costa da Nova Zelândia, em todas cidades com porto se tem uma marina para colocar o veleiro ou lancha.

Humanização

Em Opua, a marina que nos recebeu foi instalada há 15 anos e agora passa por ampliação. Tem banheiros, chuveiros, lojas. Quando chegamos em Opua, recebemos um livreto com todas as informações de lojas e de profissionais para trabalhar em carpintaria elétrica, eletrônica, soldas, mastreação, cozinha, banheiros. Até dentistas e médicos. O conceito de marina é a humanização do lugar, passando pela poluição e sustentabilidade do local. Infelizmente, no Brasil é o contrário. Sob o argumento de proteção da natureza, afastam as pessoas e a proteção de fato não ocorre sem a comunidade abraçar o lugar como seu.

Princípios

Um dos princípios é cuidar daquilo que pode nos sustentar. Nenhum dos barcos que está na marina pode utilizar o banheiro, somente aqueles com tratamento próprio de esgoto. Em todas as marinas da Nova Zelândia existe um equipamento para esvaziar os tanques de esgoto dos barcos. Assim também nos estacionamentos para trailer. A Nova Zelândia é considerado um dos países mais ecológicos do mundo, com uma população de 6,4 milhões de habitantes (tamanho de Santa Catarina) e 41 marinas.

Ostras e patas

Para explicar a questão do meio ambiente: no final de semana, o pessoal mergulha para catar ostras no pier. Ali vimos, todos os dias passearem patas e seus filhotes no meio dos barcos, inclusive ao lado do veleiro Kat. Uma pergunta que nos fizemos sempre que vemos esses exemplos de marinas sustentáveis pelo mundo é: Porque no Brasil existe tanta restrição dos órgãos ambientais para a construção de marinas?

Mangues e criatórios

Ninguém quer marina poluidora degradando mangue ou criatórios de vida marinha. Ao contrário, os recursos ambientais utilizados de forma conservacionista atraem turistas e usuários com esse perfil. Porém, parece que o melhor é se enclausurar no argumento da preservação ambiental e dizer não a qualquer alternativa conservacionista. É mais fácil proibir do que regulamentar e controlar por meio de indicadores de sustentabilidade, que incluem, por exemplo, participação da comunidade nas oportunidades de trabalho que uma marina proporciona.

Lei ultrapassada

Realmente falta no Brasil uma legislação que regule (e estimule a adoção da sustentabilidade) para as marinas. Cada órgão regulador possui um entendimento, não existem regras claras e a insegurança jurídica é constante. É uma pena que estejamos muito atrasados neste sentido e que ainda não entendemos que marinas sustentáveis proporcionam mais oportunidades de emprego e menos poluição ambiental.

Marinas sustentáveis

Estamos vendo marinas sustentáveis em todos os países que visitamos. A marina, além de proporcionar emprego, preserva o ambiente, humaniza. Não falo construir marina no meio de um mangue. A maior propaganda das marinas que conhecemos é que a agua é tão limpa que fazem criação de ostras e mariscos na própria marina. Tem marinas que de um lado é para barcos de recreio e outro lado é para os barcos de pesca  artesanal (baleeiras) e também barcos de turista.

Regras claras

Hoje (quinta-feira), em Cairns, fui abastecer de óleo diesel o veleiro Kat. Por duas vezes fomos avisados: não pode deixar escorrer nenhum óleo na água, se não a multa é altíssima para os dois lados: posto de abastecimento e o proprietário da embarcação. É ter regras claras e fiscalização com multa para cumprir. No Brasil a grande maioria das embarcações não possui tratamento de esgoto, embora tenhamos tecnologia para esse setor. Basta colocar na legislação. Nos Estados Unidos, quando chegamos na primeira viagem, as autoridades pediram para eu comprar uma placa e colocar na sala de máquinas. Estava inscrito: Se houver algum derramamento de óleo no mar, a multa é de 5 mil dólares.

Estudos

O Instituto Kat Schurmann, base terrestre da Família Schurmann, tem uma parceria com diversas instituições referência em sustentabilidade no âmbito marinho. Desenvolvemos estudos para a criação de um Programa de Certificação da Sustentabilidade de Empreendimentos Litorâneos. Tal programa constitui-se de uma série de regulamentos e critérios para concessão do selo/certificado em diferentes categorias, incluindo Estabelecimentos de Alimentos e Bebidas (com as subcategorias restaurantes, bares e lanchonetes e barracas de Praia), estabelecimentos de hospedagem (hotéis, pousadas, campings) e estabelecimentos de lazer (parques aquáticos, operadores de mergulho e marinas e garagens náuticas).

 

Por

ÂNGELA BASTOS

Diário Catarinense

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